Reconhecido em todo o mundo por já ter escrito mais de 1000 livros, Ryoki Inoue, teve o seu nome catalogado pelo “Guiness Book of Records”, como o escritor que mais escreveu livros de bolso. Mora atualmente no estado do Espírito Santo onde seria o santuário de suas inspirações. É famoso por escrever livros de bolso de faroeste e diversos outros assuntos utilizando mais de 80 pseudônimos. Seu mais recente trabalho é o livro entitulado: “E Agora, Presidente?”. A International Press esteve com o escritor e traz essa entrevista exclusiva. Acompanhe.

International Press – Como você consegue escrever tantos livros, que o tornou em recordista?

Inoue – Eu acho que a psicologia de meus avós paternos me influiu muito, “TRABALHO É TRABALHO”. Enquanto eu era médico, não tinha horário para trabalhar, começava ás sete horas e parava saía meia noite, uma hora da madrugada…Quando eu desisti da medicina, o mesmo esquema de trabalho, a mesma carga de horário eu transpus para literatura, então eu trabalho em média de 14 a 15 horas por dia, isso direto, então tem de produzir…

International Press – Quando o senhor começou o seu trabalho? Pois, para escrever mais de mil livros, são necessários muitos anos e muitas e muitas horas…Você começou escrever desde a infância? Como foi a sua infância?

Inoue – Eu escrevi, comecei a escrever esses mil e vinte livros, desde de primeiro de julho de 86 pra cá. Até 1986 escrevia mas não pensava em publicar. Escrevia crônicas, um outro artigo, sempre gostei de escrever, mas eu nunca tinha pensado em sentar para escrever um livro. Quando eu desisti da medicina, cheguei a conclusão que trabalhar com esse esquema de saúde que o Brasil tem, inviável para trabalhar direito, eu pensei em escrever um livro e mandei para uma editora no Rio de Janeiro, a editora respondeu uma semana depois, mandou um cheque e disse que, o que eu produzisse eles comprariam, então aí que eu comecei. E com essa garantia eu fui escrevendo, até lotar essa editora. Chegou um ponto em que não cabia mais, eu tive que partir para uma diversificação e comecei a escrever para todas as editoras de livro de bolso do Brasil. Fazia uma média anual de 25 livros por mês.

International Press – Sabemos que quase todos os escritores possuem a hábito de leitura. E quanto a você? Quais são as suas leituras preferidas?

Inoue – Eu leio praticamente tudo, eu gosto de ler, então nos momentos em que não estou escrevendo, eu estou lendo. Eu leio muito os best-sellers americanos que não é tanto como fonte de inspiração, mas como fonte de inspiração para aquilo que o povo está procurando ler. Agora fora isso, eu gosto de ler alguns clássicos, aí já é mais para relaxar. Eu não vou estudar um clássico, eu vou descansar num clássico. Dentro da literatura brasileira atual, o Fernando Sabino é um dos grandes, isto porque ele tem uma redação, uma forma de escrever como se a gente estivesse permanente conversando com ele. Então é uma leitura leve, agradável e se não fosse o livro da Zélia, acho que ele estaria em uma ponta danada…

International Press – O que você acha da abertura de mercado, a invasão dos empresários japoneses, americanos… O que você acha da abertura de mercado? É bom para o Brasil?

Inoue – Claro que é bom para o Brasil! Mas além de abrir o mercado precisa abrir a cabeça. Acho que não adianta abrir o mercado sem abrir a cabeça do brasileiro. Eu acho que a invasão tecnológica do Japão muito mais que a dos Estados Unidos é fundamental para o desenvolvimento do Brasil. Foi o que aconteceu com o Japão, o Japão conseguiu trazer para dentro do Japão o início da tecnologia norte americana e alemã, conseguiu aperfeiçoar e hoje é o maior. Então, nada impediria o Brasil de tentar copiar. Mas não, tem uma mentalidade de que essa reserva de mercado de tecnologia é idiota. Atrasou o Brasil por 50 anos na eletrônica. E acho que acabando essa reserva vai melhorar muita coisa.

International Press – E o seu novo livro que está escrevendo tem alguma relação com o assunto que cogitamos?
Inoue – “A Bruxa”? (sim) Não, não…É um livro meio místico que prega o não egoísmo. A idéia que o livro prega é a do não egoísmo e transmite a idéia que uma pessoa pode ser até egoísta, mas ela deve permitir que o egoísmo dela seja controlado. E o que acontece é que o egoísmo dela (bruxa) é tão grande que ela faz um pacto com o demônio e é a partir daí que o romance se desenvolve e não tem nada a ver com política, com coisa nenhuma, absolutamente nada. Mas, possui alguma coisinha a ver com segregação racial.

International Press – E por falar em misticismo, o que o senhor acha do Japão?

Inoue – Acho que é mais uma prova de sabedoria. Porque a unilateralidade é mística é um erro, leva ao fanatismo e no fim não traz nenhum proveito para alma do homem. Agora enquanto a pessoa pode ser eclética ou ecumênica, com certeza ela pode captar coisas boas de diversas religiões e pode formar a sua própria religião.

International Press – E o país Japão, esse império irá continuar por muitos e muitos anos? Pois, sabemos que os grandes impérios nunca duraram tanto.

Inoue – Eu acho que o Japão é um país sui generis a esse aspecto. É um império que tem milhares de anos e que deverá continuar, da mesma maneira que um carvalho demora 50 anos para ficar com três metros de altura (ou cinqüenta metros de altura, algo assim), enquanto que o eucalipto em 5 anos tem 22 metros. Só que a madeira do carvalho é eterna e a madeira do eucalipto em um ano está podre. Então o que acontece com o Japão é isso, o tempo da infância do Japão foi muito mais longo que o tempo de infância do império romano. Então a evolução do Japão foi dentro de uma economia fechada, de uma cultura mais fechada, foi indo devagarzinho e na hora em que o Japão abriu as portas e começou a filtrar o bom da parte ocidental, acredito que aí ele começou realmente a sua curva de ascensão. Então a sua pergunta de que o Japão duraria muito tempo…Espero que ele dure por muito e muito tempo. E acredito que a hegemonia intelectual do Japão vai ser muito maior de que qualquer outro império que já tenha existido. Exatamente porque os japoneses tem uma filosofia muito mais sábia do que as dos gregos e romanos. E uma frase que eu acho que é minha, que é um lema para mim é que o homem precisa ser como um bambu, ele dobra e quando passa o vento ele fica de pé de novo. E se for como um pinheiro ele quebra.

International Press – Sabemos que após a segunda guerra mundial a educação do Japão foi influenciada profundamente, se foi bom ou não, eu não sei. E nesses últimos anos é que houve uma reforma bastante representativa na educação do Japão. Será que isso viria causar um grande impacto nas tradições japonesas?

Inoue – O impacto sempre vai existir, as tradições devem permanecer e com o correr do tempo ela deverá ser modificada, mas eu acredito que o alicerce deve permanecer.

International Press – Com a influência dos Estados Unidos após a segunda guerra mundial, a educação no Japão não dava muito valor ao canto do hino nacional e hoje com a reforma educacional nesses últimos anos houve pequenas mudanças. E também a formação de um exército de “tropas de paz”, isso tudo não viria a comprometer a paz mundial, pois muitos japoneses estão contra essa formação de exército, mesmo sendo de paz?

Inoue – O pessoal que está no Japão e é contra eu considero como espírito de porco e pessoal que está fora e é contra eu considero como previdentes. Os japoneses tem uma posição do panorama militar mundial de um povo que dificilmente perde guerras, perdeu a segunda guerra porque não tinha jeito e era um outro assunto. Então, a formação de um exército japonês deve assustar muita gente.

International Press – E quanto ao início de nossas raízes, os imigrantes japoneses, você já tentou ou tem planos para escrever sobre eles?

Inoue – Bem, agora aquela esnobada (risos). Bem, a nossa equipe tem preparado um livro para ser lançado no Enchem Festa do ano que vem, um romance de ficção, no entanto, existe a parte histórica colocada junto. Esse romance é a história da saga de seis famílias importantes dentro da colônia. E junto com esse romance iremos fazer um histórico sobre o bairro da Liberdade, mostrando porque esse bairro tornou-se num bairro japonês. Agora, eu não tenho pretensão de colocar os acontecimentos negativos da segunda guerra nesses romances. Eu acho que houve muita segregação, mas, acho que não houve tanto para chegar a marcar e isolar o japonês.

International Press – Bem, vendo a sua forma de expressar, noto que o senhor tem o pensamento bastante liberal e jovial. Para que público você escreve? Ou não existe público?

Inoue – Não há público, eu escrevo para mim. Quando eu vou escrever um romance maior, uma coisa mais séria. Eu faço como se estivesse contando a história para mim. Se a gente vai escrever para um determinado público, acabamos caindo naquela velha história dos escritores tradicionais como o Jorge Amado que vai escrever para exportar, então escrevem viva o nordeste, nordeste e nordeste. Ou vai escrever para um público intelectualizado e intelectolóide dentro do Brasil que vai ficar procurando coisinhas, então se põe uma frase super complicada que não quer dizer absolutamente nada e o cara aplaude. Se você fala abertamente, claramente a mesma frase com sentido, dizem…Ah, não…O livro do Chico Buarque por exemplo o “Estorvo” é um livro que ao lermos da primeira a última palavra e eu não conseguimos encontrar nenhuma concatenação de idéia, está perfeito, gramaticamente, ortograficamente impecável e a parte pensante está faltando porque você não chega a conclusão nenhuma, eu não consegui entender o que o Chico quis dizer com aquele livro. Então na crítica que eu fiz ao Chico dizendo que é um livro que sai do nada e chega em lugar nenhum, ele ficou muito bravo.

International Press – Por último, a meta da International Press é crescer, informar seja no Brasil assim como no Japão e os nossos leitores no Japão são os brasileiros que estão trabalhando naquele país. Soube que você pretende lançar seus pocket books para os brasileiros que lá vivem, então que tal uma mensagem a eles?

Inoue – Como brasileiro eu sou obrigado a lamentar que valores saiam profissionais do Brasil pra tentar a vida lá fora. Como nikkei eu me sinto orgulhoso de ver que o espírito de luta não acabou. Mas, o resumo disso, eu acho que o pessoal que saiu daqui para batalhar lá fora, no fundo eles estão certos, eles vêem um horizonte mais amplo e tem que lutar por esse horizonte mas se eles voltam ou se eles acabam se radicando por lá e são felizes, que sejam. Da mesma maneira que os nikkeis daqui não esqueçam que são japoneses, que eles não se esqueçam que são brasileiros.


Fonte: Ryoki Inoue / International Press, 15 de julho de l992

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